• Jaqueline Chile

Entrevista com o Professor Acácio Ribeiro Vallim Junior



Por falar em classe artística, segue aqui uma série de perguntas que fizemos para quem forma nossos colegas de trabalho ou mesmo o responsável por plantar aquela sementinha: o arte-educador. Acácio transitou por muitas áreas artísticas e deixou um pouco de sua inteligência diante delas em forma de ensino.




“Acácio é um importante agente do movimento cultural que tem início na década de 1970, em São Paulo, tanto por sua atuação como artista e professor de dança, como pelo trabalho de crítico exercido no jornal O Estado de S. Paulo. Particularmente importante para a produção artística da área de dança, o período é marcado efervescência de movimentos de contracultura e pelo experimentalismo. Seu olhar e dedicação à dança, bem como o ânimo pela potencialidade de criações daquele período podem ser vistos nos textos publicadas semanalmente entre 1977 a 1986:” — [COELHO, Maria Cristina Barbosa Lopes; XAVIER, Renata Ferreira (orgs.). Memória da dança em São Paulo. Acácio Ribeiro Vallim Júnior. São Paulo: Centro Cultural São Paulo, Divisão de Acervos, Documentação e Conservação do Centro Cultural São Paulo, 2007. 92 p.]

Um resumão do currículo desse ícone (particularmente tão querido, pois também fez parte da minha formação) no final do texto!


Agora, a entrevista:

1 — O que fez com que você “tomasse gosto” pela carreira de arte educação?

Não acho que seja possível dizer que eu sabia o que ia encontrar quando comecei a trabalhar como professor. O gosto veio vindo, foi aparecendo aos poucos. O gosto se instalou logo que comecei a trabalhar com crianças pequenas. A primeira turma que peguei foi uma turma de maternal e Jardim I, crianças de 3 a 4 anos. Impossível imaginar encantamento maior. O gosto se implantou aí e nunca mais desapareceu.

2 — Você considera a arte educação uma tarefa fácil? É uma “opção” para qualquer artista?

Nada é fácil em educação. Portanto, arte-educação (sempre com hífen) também não é fácil. Acho que quem é artista é artista e pronto. Só os professores de arte podem enveredar pela arte-educação. E existem professores de arte que não são arte-educadores. Mas é sempre aconselhável que os arte-educadores tenham uma atividade artística, ao lado de sua atividade docente.

3 — Qual ou quais foram os maiores desafios com que você se deparou durante sua carreira como arte educador e como encontrou a(s) solução(ões)?

O mais difícil para o arte-educador é se enquadrar num ambiente institucional. A arte exige liberdade e a instituição (digamos uma escola) é cheia de regras, planejamentos, estatísticas, etc. Não existe solução para esse dilema. É preciso ter sempre os pés no chão e superar os conflitos, evitando confrontos desnecessários.

4 — Você considera a arte educação uma maneira de melhorar ou auxiliar o crescimento das crianças? Por que?

A arte é essencial para o desenvolvimento da criança. Podemos pensar no tripé da Ana Mae Barbosa: apreciar, fazer, contextualizar. Desse tripé, para mim, o mais importante é o fazer. E dentro do teatro-educação, o mais importante é o jogo dramático, “brincar” de teatro, improvisar livremente. Acho que nas nossas aulas chegamos perto de um ideal. Faltou um pouco de aprofundamento. A atividade teatral, para mim, tem que gerar prazer. Se o olho brilhar, estamos no caminho certo.

5 — Em relação aos avanços tecnológicos, você acredita que arte educação, de alguma maneira, também pode contar com eles para o desenvolvimento humano?

Eu, pessoalmente, não lido bem com a tecnologia. Esse casamento vai ficar para a tua geração resolver. Nunca senti necessidade de ter a tecnologia presente nas minhas aulas. Mas, de repente, poder entrar no Louvre, assistir ao filme da Pina Bausch (tudo pelo computador), é uma maravilha!

6 — Arte educação funciona com “gente grande”?

Sim, sim, sim! É possível através da arte-educação e do teatro-educação recuperar a espontaneidade do adulto ou do jovem, fazê-los encarar a vida com mais leveza e alegria. Brincar faz parte do ser humano. Ou se conserva um espírito brincalhão ao longo da vida, crescendo brincando, ou se recupera esse espírito através de atividade artísticas baseadas no jogo, na criatividade, na invenção.

7 — Você, como arte educador, também se considera um artista? Por que?

Sim, eu me considero. Mas, eu não sinto necessidade de escrever, estar no palco, ou criar uma música. Já fiz muita “aula” no passado. Saí da ECA e imediatamente trabalhei num espetáculo de sucesso, como ator. Já fiz preparação corporal de elencos, já fui assistente de cenografia, tenho até um prêmio da APCA como coreógrafo, já dirigi um espetáculo de dança. Mas nada disso, embora me desse prazer, “grudou” em mim. Tenho amigos que não podem viver sem dançar, sem dirigir um espetáculo, sem compor uma música. O poeta alemão, Rilke, respondeu a uma pergunta de um jovem poeta que lhe havia perguntado sobre como tinha certeza se deveria continuar a escrever poemas. Rilke disse: “Pergunte a você mesmo: se eu parar de escrever eu morro? Se a resposta for sim, continue a escrever.”

Minha principal atividade artística da semana é brincar com o meu neto de oito anos. Ele tem uns bonequinhos chamados “googles” (não sei se é assim que se escreve) e montamos histórias incríveis com eles. Essa brincadeira preenche tudo o que eu preciso, em termos de criação. Não é para mostrar para ninguém. É para nós, e pronto. Tenho também um grupo de dança, quatro pessoas que estão juntas há 40 anos, acreditem se quiser. Toda semana nos encontramos, dançamos/improvisamos durante meia hora, quarenta minutos. Fazemos isso com as nossas dores (todos têm mais de 70 anos), nossas doenças, nossas histórias de vida. Não planejamos, não avaliamos. Sou um artista, sim. Do meu jeito.

8 — Quem você considera um mestre nesse âmbito e quais as dicas de leitura e/ou de vida que você daria para as pessoas que se interessam por essa área, que querem ingressar, mas ainda não o fizeram ou que acabaram de começar a trilhar essa carreira da arte educação?

Ai, que pergunta difícil!

Existem as licenciaturas em arte. Ainda considero a nossa a melhor embora o tempo seja insuficiente. Se você quiser trabalhar numa instituição, precisa da licenciatura. Depois, prosseguir nos estudos (mestrado, etc), depende de vontade e oportunidade. Como arte-educador, é essencial ter uma atividade artística. Você percebe melhor o que acontece com os alunos. Depois, a bibliografia é a de sempre: Herbert Read, Ana Mae Barbosa, Joana Lopes, Malu Puppo. Alguns textos são mais complicados. E se, a vontade é enveredar para valer na educação, é preciso ler os teóricos: Libâneo, Jacques Delors. Esses são os que me tomaram. À partir daí muita água já correu por baixo da ponte.

Um lembrete: Procure conhecer a experiencia de Summerhill, uma escola da Inglaterra, lá dos anos 30 do século XX. Ainda é uma referência.

O livro do Rilke é: Rainer M. Rilke — Cartas à um jovem poeta.


E assim terminamos os questionamentos para esse professor / artista de coração e alma imensos. O Acácio é uma figura perfeita para estender um almoço ou conversar num chá da tarde prolongado. Das minhas aulas na faculdade, de longe uma das disciplinas preferidas (ainda mais quando eram aulas práticas). Com saudades dessa época, me despeço por aqui com o currículo resumido de peso desse meu professor tão querido. Até breve, por aqui.


“Acácio Ribeiro Vallim Júnior (Santos, SP, 1948). Professor e crítico de dança, ator e preparador corporal. Em 1972, gradua-se em artes cênicas, dramaturgia e crítica pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) e em 1974, em arquitetura pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU/USP). A partir de 1970, inicia seus estudos em dança moderna com Maria Duschenes (1922–2014) e acompanha e atua em suas diversas montagens até 1999, quando interrompe a carreira pedagógica. Simultaneamente, é iniciado no Teatro-Educação por Joana Lopes e faz parte do Gruparte Teatro-Educação de São Paulo, no período de 1971 a 1980. Como ator, compõe o elenco de A Viagem, de Carlos Queiroz Telles (1936–1993). Participa, em 1974, do American Dance Festival, em Connecticut (Estados Unidos). Cria suas primeiras coreografias, em 1975, para a peça Porandubas Populares, de Carlos Queiroz Telles — com a qual recebe o prêmio de revelação de coreógrafo da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) — e, em 1977, para A Lenda do Vale da Lua, ambas dirigidas por Mário Masetti. No mesmo ano, passa a atuar como crítico de dança do jornal O Estado de S. Paulo, no qual permanece até 1986. Licencia-se, em 1980, em educação artística pelo Instituto Musical de São Paulo. Com Umberto da Silva (1951–2008) cria Tambores, Suor e Lágrimas, em 1992, para O Masculino na Dança, no Centro Cultural São Paulo (CCSP). Assume a direção da Escola Municipal de Bailados de São Paulo no período de 1989 a 1992. Como professor, atua no curso Comunicação das Artes do Corpo da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), de 2001 a 2005. Coordenou, de 1999 até 2015, o curso de teatro da Universidade Anhembi Morumbi, além de ministrar aulas no mesmo espaço.”

bibliografia (c.v.): http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa200159/acacio-vallim-junior

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